Artigo: Dourados, a nova Manaus?

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Renato Câmara (*)

O crescimento exponencial das mortes e casos de Covid-19 em Dourados é a maior crise da história de Dourados, que exige ações ainda mais emergenciais e contínuas pela gestão pública para promover estratégias que tenham efeitos concretos para evitar um cenário devastador ao longo do mês de julho.

O estudo desenvolvido por quatro pesquisadores de três universidades públicas brasileiras, encomendado pela Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul, e publicado amplamente pela imprensa mostra que a guerra contra o coronavírus chega a um momento decisivo em Dourados e aponta para um cenário difícil e desafiador a ser enfrentado no decorrer das próximas semanas, pelo extraordinário crescimento vertical da curva de contágio.

Conforme a pesquisa, elaborada por Fernando Ferraz Ribeiro, da Universidade Federal da Bahia; Marco Aurélio Boselli, da Universidade Federal de Uberlândia (MG); Everaldo Freitas Guedes, doutor em modelagem computacional aplicada à tecnologia industrial, de Salvador (BA), e Fernanda Vasques Ferreira, da Universidade Federal do Oeste da Bahia, a contaminação em Dourados está evoluindo de forma muito rápida e parece não dar sinais de recuo nas próximas duas semanas. Conforme o documento, em 10 dias o número de óbitos pode dobrar na cidade em relação ao início do estudo.

Na publicação, além de observar a incidência de casos na cidade, os pesquisadores compararam a situação de Dourados com Manaus, capital do Amazonas, que foi o primeiro município do país a apresentar colapso no sistema de saúde em decorrência da Covid-19. Por meio desse tipo de comparação, os cientistas conseguem visualizar uma similaridade entre as duas cidades em relação à trajetória da doença, apresentada pelos números, mostrando uma estrutura de enfrentamento que aponta para a mesma direção na curva.

Até essa terça-feira (7), Dourados já havia contabilizado 36 mortes e 3.095 contaminações pelo novo coronavírus, conforme a Secretaria de Estado de Saúde. As observações dos pesquisadores ocorreram entre 23 de maio e 23 de junho e revelaram que, mesmo com a população equivalente a ¼ dos habitantes de Campo Grande, os diagnósticos são significativamente maiores. Somente em maio, a quantidade de infecções em Dourados aumentou 2.563,6% em relação ao mês de abril. No mês de junho, a taxa evoluiu 465,9% em relação a maio.

A comparação é uma ferramenta analítica e, conforme a nota técnica, embora haja limitações, possibilita traçar cenários futuros por meio de modelos matemáticos. Nesse caso, o plano de gestão de crise é o documento oficial do município que orienta como conter o avanço da pandemia. A situação de Dourados chama a atenção, justamente, pela ruptura do plano e troca dos membros do comitê emergencial, em plena pandemia, prejudicando sensivelmente as estratégias e ações fundamentais que deveriam ser executadas na área da saúde. Porém, o cenário ainda não é de terra arrasada e esse plano pode ser reestruturado, inclusive com a inclusão de novas informações e correção das falhas já diagnosticadas. Manaus já passou por esse quadro de colapso no sistema de saúde e Dourados corre esse risco de enfrentar esse quadro, caso não seja adotada uma nova postura de enfrentamento ao covid-19.

Entre os problemas enfrentados pela capital do Amazonas esteve a falta de leitos de UTI para o tratamento do coronavírus. Segundo o estudo, Dourados caminha para o esgotamento da oferta desse serviço, considerando que mais de 50% dos 102 leitos da cidade estavam ocupados até ontem, como aponta o relatório da Secretaria de Estado de Saúde.

Através deste estudo, penso que, a única forma de alterar a situação de Dourados e evitar novas mortes é investindo em medidas preventivas inteligentes, democráticas e participativas de isolamento social (distanciamento físico), dando voz às instituições no momento da tomada de decisão. Essas ações são defendidas por nosso mandato desde o início da pandemia.

Também vejo a necessidade da adoção de um novo caminho para coordenar as ações da vigilância epidemiológica da atenção primária, ampliando a testagem para evidenciar os parâmetros e monitoramento dos casos individuais de infecção. A organização neste momento de crise é primordial para que seja colocado em prática o protocolo de distanciamento social, que cientificamente foi aprovado como o mais importante e eficaz mecanismo para conter a proliferação do coronavírus. Acredito que esse tenha sido um dos fatores mais preponderantes para o avanço devastador da doença nos últimos 45 dias em Dourados, já que índice de isolamento da população sempre esteve abaixo do que preconizam os infectologistas.

Apesar de preocupantes, esses dados apontados na pesquisa são importantes e estratégicos para orientar o poder público na condução e definição de novas frentes de combate à doença. O estudo dá oportunidade para que a administração pública municipal estabeleça estratégias e adote outro caminho para enfrentar o Covid-19.

Faço um paralelo mental: com base em minhas experiências de vida. Lembrei-me de quando fui representante dos alunos como monitor do alojamento C, Bloco 1, da escola em técnico agropecuária  da Fundação Bradesco de Bodoquena. Lá aprendi que liderar e manter a ordem e a limpeza de um alojamento com 40 alunos (com idade média de 14 anos) não era uma tarefa fácil.

Foi necessário ter uma ação mais contundente, porém pacífica, para que as regras fossem cumpridas. Precisei decidir se me comportaria fugindo dos atritos, deixando as coisas acontecerem, ou enfrentaria a desordem natural com uma postura de cobrança por resultados, mantendo o diálogo com os que não aceitavam as regras e buscando convencê-los da importância da união para se cumprir as tarefas de limpeza e manter o silêncio no horário noturno, como previam as regras da escola. Tudo isso focando sempre o bem coletivo, que estava acima das vontades individuais.

Recordo-me, como se fosse hoje, que aquelas decisões não foram fáceis de serem tomadas. Claro, recebi muitas críticas, já que certos posicionamentos nunca são assimilados naturalmente por todos, mas nunca perdi o respeito e a amizade dos meus colegas.

E no caso da pandemia, o que fazer? Ela causa perturbação social de várias ordens, geram sérios impactos a saúde pública e a econômica, mexe com o modelo de vida das famílias e provoca até mesmo desequilíbrio mental e emocional. Diante de uma crise desta natureza, precisamos ser liderados, por quem? Para mim, essa liderança deve ser exercida por aquele que tem o dever e a obrigação constitucional, no caso a prefeita Délia Razuk.  Em situações adversas como essa, os mecanismos de enfrentamento estão muitas vezes na força da caneta do gestor municipal para planejar, comprar e executar as ações executadas pela Secretaria Municipal de Saúde.

Em recente entrevista à rádio FM Cidade 101, a médica infectologista e membro e membro do Comitê de Operações de Emergências (COE) da Secretaria de Estado de Saúde, Mariana Croda, fez um alerta sobre a situação da macrorregião de Dourados e reforçou a necessidade de medidas contundentes para se evitar um colapso no sistema público de saúde neste mês de julho na segunda maior cidade do Estado.

Na ocasião, a infectologista foi enfática ao destacar que “Dourados está sim em um momento crítico e medidas austeras precisam ser tomadas imediatamente, senão nós teremos muitas vidas ceifadas. Vidas essas que poderiam sim ser preservadas”, afirmou.

Em outro trecho da entrevista, a infectologista reforçou que é de única e exclusiva competência e responsabilidade da administração municipal essa tomada de decisão para adoção de medidas mais afirmativas de combate ao avanço do coronavírus em Dourados, tendo em vista que o município tem gestão plena de saúde. Desta forma, qualquer interferência, seja por parte da Justiça, governo estadual ou federal, para a implementação de uma nova política de combate à doença configuraria uma intervenção na gestão do sistema público de saúde de Dourados, medida extrema, que certamente traria mais desavença e dificuldades para a execução das ações de contenção ao vírus.

Sinto que chegamos a um momento decisivo nesta batalha contra o coronavírus em Dourados e a administração municipal precisa assumir esse protagonismo na condução do plano de gestão de crise. Esse processo exigirá desprendimento político e uma participação ainda mais efetiva de técnicos e especialistas do setor para se promover um amplo diálogo entre as instituições, Estado e demais segmentos da sociedade na busca de convergência para a condução do plano de ação.

Acredito que o discurso feito no último domingo pelo papa Francisco para defender o fim dos conflitos como forma de ajudar no combate à pandemia do coronavírus está mais atual do que nunca para a situação que vivemos em Dourados.  Durante a oração do Angelus na Praça de São Pedro do Vaticano, o pontífice pediu o fim imediato das hostilidades em todas as partes e situações. “Espero que a união de forças seja implementada rapidamente e de forma efetiva pelo bem de tantas pessoas que estão sofrendo”, defendeu o papa.

 

(*) – É engenheiro agrônomo, mestre em gestão e produção agroindustrial. Exerce o segundo mandato de deputado estadual pelo MDB